É muito comum cuidarmos de áreas específicas, em determinados momentos de nossa vida, enquanto as outras ficam soltas e negligenciadas, carentes de nós. Mas será que temos a percepção de que existe algo importante além do que estamos acostumados e conhecemos?


Você já parou para pensar em outras áreas de sua vida, além das que você cuida e se preocupa atualmente? Se você fizer uma reflexão de sua vida hoje, em qual área você coloca mais energia e atenção? Será que a energia e o foco direcionado estão adequados e saudáveis? E as outras que existem? Você as conhece? Acha que são importantes?


No livro da Dr. Ana Claudia Arantes, A Morte é um dia que vale a pena viver – E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida, ela cita vários exemplos e caminhos para repensar sobre a maneira como levamos a vida.“Faltar na própria vida é uma dessas ausências impossíveis de explicar. A conexão consigo mesmo, com o outro, com a natureza, com o mundo à sua volta e com o que cada um de nós considera sagrado, exige, antes de tudo, estado de presença”.(ARANTES, 2016, pág. 77).


Então, um bom caminho pode ser começar a olhar a sua vida de maneira mais ampla, como você está se relacionando e agindo no aqui e agora em diversas áreas. Embora nem sempre temos a clareza a respeito de outras áreas que também precisam de cuidado, neste texto vou oferecer algumas pistas, pois a própria vida vai nos dando alguns sinais, internos e externos, que podemos usar como um convite para olhar nossa vida de maneira mais abrangente, reconhecendo as áreas que estão sendo bem cuidadas por você e as outras que merecem sua atenção.


Como identificar se estamos cuidando bem da nossa vida? Quais são os sinais?


Um primeiro passo é identificar o que aprendemos que merece nossa atenção e empenho. A maneira como encaramos cada uma de nossas escolhas em cuidar ou não de determinada área, pode ter a ver com a nossa educação, valores familiares, vivência das primeiras relações afetivas, condição social, cultural, crenças, traumas, necessidades, conhecimentos, contextos de vida, situações adversas que fogem de nosso controle, entre outros fatores complexos de nossa história. Um dos problemas é que os nossos condicionamentos, desenvolvidos a partir de nossa história, fazem com que fiquemos cristalizados e engessados em apenas uma área, ou, em apenas uma forma de cuidar daquela área, enquanto outras não são atendidas ou até mesmo, desenvolver novas maneiras de cuidado.


Podemos pensar que outras áreas não são tão importantes simplesmente porque não aprendemos que eram, ou porque pensamos que não podemos fazer nada de diferente ou melhor em relação a ela e nos acostumamos com o que temos, ou então que não achamos que é nossa responsabilidade, ou porque não merecemos, que é a perda de tempo e por aí vai… tantas outras mensagens internalizadas a respeito das áreas da vida.


Mas a nossa vida é dinâmica e devemos responder por ela, como afirma Viktor Frankl, “dia a dia a vida nos faz questões, somos interrogados pela vida e devemos respondê-la. A vida, gostaria de afirmar, é um período de perguntas e respostas que dura quanto durar a vida. Com relação às respostas, não me canso de dizer que podemos responder à Vida apenas com o responder de nossas vidas. Responder à vida significa fazer-nos responsáveis por nossas vidas”. (FRANKL. Um Sentido para a Vida. Psicoterapia e Humanismo, 2005, pág. 114)


Existem alguns sinais, internos e externos, que podemos usar como um convite para olhar nossa vida de maneira mais ampla.


Exemplo de sinais internos: achar que a vida está morna, sem graça, vazia, mas nem sabe o motivo; a sensação de que está perdendo tempo e que poderia estar fazendo algo, mas não sabe o quê, achar que a vida das pessoas da internet é melhor que a sua, insatisfação com algumas escolhas, sentir que não está usando todas as suas potencialidades, além de outros sinais muito pessoais que vale a pena cada um refletir.


Exemplo de sinais do meio externo que nos fazem olhar para outras áreas: término de um relacionamento, mudança no trabalho, uma doença, a morte de alguém próximo, a própria pandemia que precisamos olhar mais para nós e para o mundo, enfim, alguns eventos externos de rupturas e mudanças inesperadas que nos afetam trazendo angústia e faz com que, obrigatoriamente, tenhamos que ampliar o olhar a respeito de nossa vida.


Estar atento à própria vida como um todo, sendo responsável por ela, contribui para valorizarmos o tempo e a vida da melhor maneira, dentro daquilo que depende de nós.


“Se eu olhar para trás e disser: nossa, que horror! O que eu sofri!…foram anos da minha vida que eu dei para aquilo!… Eu não devia! Quando digo isso, matei um tempo da minha vida”. (ARANTES, 2016, pág. 166).


“O que você está fazendo com esse tempo que vai passando? Para mim, essa reflexão é a chave geral que “liga” a lucidez das escolhas. O que eu faço com meu tempo?”. (ARANTES, 2016, pág. 67)


Mas, afinal, quais são as áreas importantes da vida?


Olhar para os aspectos objetivos e concretos da vida, pode ser um caminho para sinalizar como você está cuidando da sua própria história de vida. Podemos usar o recurso da Roda da Vida, na qual você consegue ter uma visão mais ampla das áreas na vida que precisam de sua atenção e cuidado. Um exemplo de Roda da Vida com áreas que são comuns à maioria das pessoas.


Olhe para cada uma destas áreas e veja o quanto você está satisfeito com cada uma delas, este ponto inicial pode dar um parâmetro do que é importante de maneira geral. Você pode atribuir uma nota para quantificar ou mesmo fazer uma avaliação qualitativa de cada uma delas.


Agora, como cada ser humano é único, vale a pena você criar sua própria Roda da Vida e colocar os elementos que considera importante na sua história.


Como começar a nutrir as áreas da Roda da Vida?


Então para pensar e amadurecer as ideias sobre estes pontos, vamos colocar itens importantes para reflexão e ação.


1º. Liste as áreas da sua vida que são importantes para você.

2º. Olha e reflita sobre cada uma delas. Você está satisfeito? O quanto cada área recebe de você?

3º. Se não fizer nada com cada uma delas, o que pode acontecer com sua vida?

4º. Como gostaria que cada uma ficasse? Visualize o melhor cenário.

5º. Acredita que é possível? Se não acredita, o que te impede de pensar nas possibilidades? (pense nos medos, crenças negativas, falta de conhecimento, limitações, entre outros)

6º. De quem é a responsabilidade por cada uma destas áreas? Tem algo que você pode fazer?

7º. O que você gostaria ou poderia fazer para cuidar melhor desta área?

8º. Pense e crie pequenas ações/atitudes que possa regar/nutrir cada uma delas.

9º. As soluções não são rápidas e instantâneas, mas começar a olhar para cada uma delas, pode aguçar sua vontade de melhorar e aos poucos as ideias vão surgindo, desde que você dedique tempo para cada uma delas.

10º. Tenha um caderno para anotar suas reflexões e registre qualquer ideia que vier a respeito de cada uma delas, coloque data e vá acompanhando seu projeto para sua Roda da Vida. (nossa memória é curta)


Viver uma vida que vale a pena


Este foi apenas um caminho para te ajudar a olhar sua vida como um todo, pois às vezes temos um olhar muito estreito e limitado quanto às nossas possibilidades.


Não espere que algo aconteça e você tenha que olhar para cada delas num momento de desespero, é importante que todas sejam nutridas para viver em harmonia, fazendo aquilo que depende de você.


Quando estiver lá no finalzinho da vida, o que gostaria de se lembrar de como viveu e se relacionou em cada uma destas áreas? O que deu de você para cada uma? Quais marcas gostaria de deixar em cada uma delas?


“Se não sou eu que o faço, quem o fará por mim? Se não o fizer agora, quando poderei fazê-lo? Deverei esperar até que passe a oportunidade?”
(FRANKL. Viktor E. Sede de Sentido. 2003, pág. 29)


Boa reflexão e desejo que viva uma ótima vida!


Luciana Escarmanhani Avelino – psicóloga clínica CRP: 06/65.601


REFERÊNCIAS

ARANTES. Ana Claudia Quintana . A morte é um dia que vale a pena viver. – Rio de Janeiro- Casa da Palavra, 2016.

FRANKL. Viktor E. Sede de Sentido. São Paulo: Quadrante, 2003. 3ªed.

FRANKL. Viktor E. Um Sentido para a Vida. Psicoterapia e Humanismo. Aparecida-SP: Ideias&Letras, 2005.

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