É possível olhar para uma determinada área da vida onde não se sente satisfeito e acreditar que nada pode ser feito para melhorar ou mudar e ficar meses, anos, ou uma vida inteira acreditando que não há saída.


Existem diversos fatores intrínsecos que podem prejudicar o desenvolvimento da autorresponsabilidade, como por exemplo: acreditar e esperar que uma mudança externa ocorra para que a vida melhore (mas às vezes isso pode não acontecer); insegurança, medo, dificuldade de encontrar saídas e apoio, falta de estrutura emocional e psíquica, a crença de achar que não merece algo melhor e que a vida é assim mesmo, pouca habilidade ou conhecimento, baixa autoestima, acomodação, falta de persistência, entre tantos outros fatores que podemos listar, mas as dificuldades dependem de cada um, pois cada pessoa tem sua própria complexidade.


A proposta deste texto é apresentar a autorresponsabilidade como uma possibilidade de cuidado a uma determinada área da vida, na qual a própria pessoa possa fazer a diferença, ao invés de aguardar algo do meio externo.


Mesmo que algumas situações e contextos possam manter-se iguais sem uma melhora sequer ou que não se possa fazer nada, cada um pode ser responsável pela própria atitude frente ao que é inevitável.


Para Viktor Frankl, psiquiatra judeu sobrevivente a quatro campos de concentração e criador da Logoterapia – A terapia da Busca de Sentido, “quando já não somos capazes de mudar uma situação incurável, como um câncer que não se pode mais operar -, somos desafiados a mudar a nós próprios”. (Frankl, 2008, pag. 137)


Desenvolver a atitude de autorresponsabilidade é uma aprendizagem que pode ser realizada em qualquer momento da vida e em diversos contextos.


Para tanto, cada pessoa precisa superar as próprias dificuldades para seguir adiante, colocando a vida em movimento e na direção que deseja.


“Em suma, cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável. Assim, a logoterapia vê na responsabilidade (responsabiliness) a essência propriamente dita da existência humana.” (Frankl, 2008, pag. 133)


Como desenvolver a autorresponsabilidade?

Diante da conscientização da autorresponsabilidade como possibilidade de mudança, observe cada área da própria vida e perceba como se sente em cada uma delas.


Alguns exemplos de áreas comuns: profissional, afetiva, saúde física e emocional, amizade, família, lazer, intelectual, espiritual, financeira, intrapessoal, e outras que você considere importante.


Ao observar cada uma destas áreas, perceba qual seu nível de satisfação e verifique se a que está melhor, foi a que você dedicou mais cuidado e atenção. Se for este o caso, pode ser que alguma habilidade ou atitude, possa ser útil para a outra área que deseja cuidar. Lembre-se de toda sua experiência de vida e seus aprendizados.


Em relação as áreas nas quais não se sente satisfeito, o que é perfeitamente normal, pois em cada momento temos prioridades diferentes, sinta o que gostaria de melhorar e como gostaria de se ver frente a cada uma delas.


Caso não consiga pensar sozinho, converse com alguém de sua confiança, escreva suas ideias para organizar o pensamento, ou se necessário, procure ajuda profissional.


Seja sincero com você e reflita sobre o quanto está disposto a realizar o que deseja? Que ações poderia realizar? Se ninguém fizer nada, o que você poderia fazer? (Branden, 2001, pag.106)


Quais atitudes/ações poderia ter para melhorar e começar a caminhar em direção ao que deseja? O que precisaria de um esforço maior da sua parte? 


“Para sentir-me competente perante a vida e merecedor da felicidade, preciso sentir que tenho algum controle sobre a minha vida. Isso requer que eu esteja disposto a assumir a responsabilidade pelos meus atos e que eu alcance meus objetivos, o que significa assumir a responsabilidade por minha própria vida e por meu bem-estar”. (Branden, 1998, pág. 141)


Quando a mente se abre para o novo, abre-se uma porta e as conexões começam a acontecer. Esteja atento ao que acontece a sua volta. Às vezes um filme, uma conversa com um amigo, uma palestra, um livro, pode dar o click e ampliar sua visão.


É possível descobrir ou mesmo trazer para a consciência habilidades, forças, criatividade e possibilidades próprias para começar com pequenas atitudes em direção ao que deseja.  “assumir que sou responsável por minha felicidade me fortalece. Coloca minha vida de volta em minhas mãos” (Branden, 1998, pág.145).


Veja 10 exemplos de atitudes de autorresponsabilidade:

  1. Cuidar do próprio tempo com rotinas úteis e saudáveis, com o foco no que deseja melhorar.
  2. Ir em busca de realizar os próprios desejos e sonhos.
  3. Responsabilizar-se pelas próprias escolhas.
  4. Cuidar do próprio comportamento em relação outro, melhorando a qualidade das relações, dentro daquilo que depende de você.
  5. Cuidar das próprias dores emocionais dos contextos difíceis do passado (traumas), liberar mágoas e ressentimentos para a vida ficar mais leve e fluida.
  6. Atualizar e ressignificar crenças, criando oportunidades de viver melhor.
  7. Reconhecer o que recebeu e aprendeu na vida, manter o que ajudou e ressignificar o que não se encaixa mais.
  8. Aceitar o que é difícil e ser generoso e amoroso consigo.
  9. Realizar uma vida com sentido (Ver vídeo no meu canal no youtube e texto no meu site sobre o livro Em Busca de Sentido)
  10. Qualificar-se em direção a algo que deseja fazer melhor. (veja o vídeo e texto no meu site e canal no youtube: Como o foco pode melhorar sua vida? e o vídeo: Foco + Propósito)

Veja 10 benefícios de viver com a atitude de autorresponsabilidade:

  1. Desenvolver novas habilidades e atitudes independente do resultado: “a felicidade deve acontecer naturalmente, e o mesmo ocorre com o sucesso; vocês precisam deixá-lo acontecer não se preocupando com ele” (Frankl, 2008, pág, 10)
  2. Experimentar a responsabilidade de cuidar de você e de suas realizações, tendo uma vida mais ativa e fluida.
  3. Acumular experiências novas e diferentes enriquecendo o mundo interno.
  4. Viver cada dia experimentando um pouco daquilo que deseja ser.
  5. Melhorar seus conhecimentos, construindo segurança, sabendo que pode fazer algo por si, sem esperar pelo outro ou pela mudança do mundo.
  6. Viver com mais foco para algo útil e importante, não desperdiçando seu tempo e energia.
  7. Expandir possibilidades, construindo força própria com o acúmulo de novas experiencias e expandindo sua mente, saindo da mesmice.
  8. Pensar por você, ter ideias próprias e ter mais autonomia na vida, fazendo escolhas mais conscientes.
  9. Reconhecer e estar seguro de que fez o melhor que pôde, não ficou vendo a vida passar sem ter feito nada. 
  10. Viver a vida que desejou para você, sendo melhor a cada dia.

Um exemplo real de autorresponsabilidade na área profissional:

De design de móveis à comissária de bordo aos 42 anos.

Darei exemplo de uma comissária de bordo, amiga próxima, que tinha este sonho antes mesmo de entrar na faculdade, mas parecia um sonho muito distante, na mente dela era tão impossível como ser uma astronauta.


Estudou Turismo, formou-se em Desenho Industrial, foi guia de turismo, trabalhou como design de móveis, mas ainda não se sentia realizada na área profissional.


Quando se sentia frustrada, espiava sobre o curso de Comissária, porém, a necessidade do inglês era um dos empecilhos e quando completou vinte e cinco anos, pensou: Minha chance acabou! As frustrações na área profissional foram aumentando, e foi começando a se dar conta das próprias escolhas por estar neste contexto.


Em 2014, a partir de uma conversa com uma amiga, tomou a decisão de que no ano seguinte precisaria ter alguma atitude diferente, pois reconhecia sua responsabilidade em sentir-se frustrada e insatisfeita na área profissional, e precisava fazer uma mudança.  (este é um exemplo claro de autorresponsabilidade que nos impulsiona para uma nova ação)  


Em 2015, no primeiro semestre, ficou estagnada, não conseguia agir. Começou a dialogar e a emanar uma energia para o universo pois algo precisaria mudar, mas ainda estava muito difícil para tomar qualquer atitude. 


Coincidentemente um primo também tinha feito uma mudança radical na vida, renunciando a um bom salário e estabilidade para tentar entrar na aviação como piloto. Conseguiu trabalhar no aeroporto, recebendo menos (teve apoio da esposa para a mudança), e foi migrando para comissário de bordo, até chegar na vaga pretendida de piloto de avião. (considero este um bom exemplo de parcerias de apoio e modelos que podem servir como inspiração e encorajamento além da necessidade, algumas vezes, de desapegar-se de situações “confortáveis” e “seguras”)


Quando se deparou com a atitude do primo, bateu aquele arrependimento de não ter tentado… O primo a incentivou a fazer o curso, embora ela achasse que já estava fora da idade. Tinha então quarenta anos, mas pensou: Será? E Por que não? Mas pensou  e decidiu que valeria a pena tentar, mesmo que não desse certo, a tentativa por si só, já seria uma experiência válida.   


Em 2016 investiu as economias num intercambio e começou a pesquisar mais sobre a aviação, empenhou-se em aperfeiçoar o inglês, espanhol e cursos específicos da área. Paralelamente continuou fazendo trabalhos de freelancer na antiga profissão com a mesma dedicação de sempre.


Estava decidida a tentar, pediu ajuda de amigos no que não dominava (elaboração de currículo, entrevista, vídeo de apresentação) e continuou no seu foco.


Em 2017 foi chamada para uma entrevista, teve alguns contratempos que quase a desestabilizaram, contou novamente com ajuda de pessoas próximas, e seguiu adiante. O fato de ter participado de uma etapa de entrevista em inglês, independente do resultado, já tinha valido a pena porque o inglês sempre foi um bloqueio, e estar neste contexto por si só, já fazia com que se sentisse vitoriosa. 


Em 2018 finalmente conseguiu entrar na aviação realizar seu sonho antigo aos quarenta e dois anos.


Vejamos, levaram quatro anos entre dar-se conta de sua frustração e assumir a responsabilidade pela mudança (2014), qualificar-se para a melhora pretendida (2015 a 2017), e então alcançar a meta almejada (2018).


Segundo ela, seu processo de mudança teve 3 fases: 

  1. 1ª:  a consciência de que algo não estava bom e que dependia somente dela para mudar, ou seja, precisava tomar uma atitude. 
  2. Estar com a mente aberta para o novo. Aprender a ler e entender os “sinais” que a vida estava lhe apresentando: a conversa com a amiga onde percebeu ser também a responsável por estar onde não se sentia realizada; a ousadia e coragem do primo como incentivo e não como arrependimento por não ter tentado antes; os alertas de amigos sobre a idade para a área pretendida como pensamento racional de cuidar das expectativas, manter os pés no chão, mas dar o melhor naquilo que estava se propondo. 
  3. Viver sua vontade: Olhar-se como comissária, viver cada momento do caminho. Quando saía do trabalho anterior e ia para o curso de comissária, colocava o uniforme, olhava no espelho e pensava: se eu fosse uma empresa, me contrataria? Já se via como comissária durante o curso e pensava que tudo o que aprendia lhe ajudaria na vida, independente do resultado. 

Aprendeu que cada dia de caminhada era uma vitória, cada passo era importante e representava uma etapa alcançada e uma conquista realizada, e só pela experiência de estar no caminho já valia a pena. 


Quando se prepara, coloca seu uniforme e se direciona para a pista de decolagem, sente-se muito realizada por ter acreditado que valia pena sonhar alto e encarar o desafio.


Bom, fiz questão de detalhar cada passo das etapas desta amiga, pois ao ouvir o áudio gentilmente me enviado, ia me lembrando das etapas percorridas, e sempre digo que sua história é um exemplo que gosto de compartilhar, serve de inspiração. 


Conclusão:

Esta história exemplifica cada um dos tópicos abordados no texto e inspira quanto ao conceito da autorresponsabilidade, pois quando trazemos a possibilidade de mudança para perto, tomamos nossa vida em nossas mãos. 


Claro que nem tudo conseguimos mudar, mas tem áreas da vida que só depende de uma atitude para sair do sonho e transformar-se em realidade.


Pode até ser que não chegue ao resultado almejado, que alcance um resultado diferente, ou até melhor do que imaginava. Mas, só o fato de estar no caminho, fazendo um movimento, aprendendo e enriquecendo o mundo interno com novas experiências, já vale a pena. É muito mais produtivo e enriquecedor do que ficar à espera de algo que pode não acontecer, tanto na área profissional como na área pessoal.


E você? Qual seu sonho antigo que pode te colocar em movimento e decolar? Como a atitude de autorresponsabilidade poderia melhorar sua vida?


E quando algo mudar, compartilhe, ficarei muito feliz em ter notícias!


Um grande Abraço e ótimas reflexões!


Luciana Escarmanhani, psicóloga clínica, CRP: 06/65.601, com experiência em empresa, hospital e escola. Consultório em Higienópolis, Vinhedo e atendimentos online.


REFERÊNCIAS:

BRANDEN, Nathaniel. Auto-estima- Como aprender a cuidar de si mesmo; tradução de Ricardo Gouveia 39ªed. – São Paul: Saraiva, 2001.

BRANDEN, Nathaniel. Auto-estima e os seus seis pilares; tradução de Vera Caputo. 4ª ed. – São Paul: Saraiva, 1998.

FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25 ed. – São Leopoldo: Sinodal;.Petrópolis: Vozes, 2008

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